3º Seminário Democracia e Forças Armadas: Segurança, Meio Ambiente e Justiça Climática

Seminário
31 de outubro de 2025

O 3º Seminário Democracia e Forças Armadas, organizado pelo Núcleo Democracia e Forças Armadas (NEDEFA), através do projeto Pró-Defesa V – “Preparar para proteger: Aprendizado organizacional militar no Brasil face a novos contextos de crise humanitária”, em parceria com o Laboratório de Estudos de Segurança e Defesa (LESD/UFRJ), propôs uma reflexão crítica sobre as intersecções entre segurança e defesa, proteção do meio ambiente e justiça climática. A partir de diferentes recortes, o evento buscou problematizar a gestão militarizada do meio ambiente e das emergências climáticas, analisando seus impactos sobre territórios, populações e sobre as próprias relações civis-militares.

 O evento reuniu pesquisadoras e pesquisadores com o objetivo de refletir criticamente sobre a expansão do papel das Forças Armadas em contextos ambientais e humanitários, seus impactos sobre a democracia, a concessão de direitos e as desigualdades no Brasil.

Ao tomar a justiça climática como lente analítica transversal, o seminário, que foi dividido em três mesas, problematizou a militarização da agenda ambiental, a atuação das Forças Armadas em desastres climáticos e a intensificação de práticas de vigilância e controle territorial, especialmente na Amazônia, promovendo um debate crítico sobre os processos de militarização e o papel dos atores de segurança nas crises ambientais contemporâneas.

O seminário foi realizado no dia 31 de outubro em formato híbrido: presencialmente no auditório do IRI 2 (Rua Marquês de São Vicente, 232 – Gávea), e transmitido online através do canal do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio no YouTube. O evento contou com o apoio do CAPES PAEP e da FAPERJ.

Assista clicando abaixo:

Sessão de abertura:

Maíra Siman (IRI e NEDEFA/PUC-Rio)

Kai Michael Kenkel (IRI e NEDEFA/PUC-Rio)

Adriana Marques (LESD/UFRJ)
Moderação: Victória Santos (IRI e NEDEFA/PUC-Rio)

 

Mesa 1 – Forças Armadas e agenda ambiental: crise climática e os desafios da sua militarização

Beatriz Mattos (Plataforma Cipó)

Brenda Thainá Cardoso de Castro (UEPA)

Mariana Plum (Centro Soberania e Clima)

Guilherme Lemos (UFSCar)

Debatedora: Adriana Marques (LESD/UFRJ)

O debate da primeira mesa concentrou-se na relação entre mudanças climáticas, segurança e defesa, ao discutir os riscos da securitização da agenda climática e seus efeitos políticos e institucionais. As exposições destacaram como as burocracias da defesa incorporam (ou deixam de incorporar) a justiça climática em suas agendas ambientais e como as doutrinas militares tendem a enquadrar a crise climática prioritariamente como ameaça à infraestrutura, aos recursos e à soberania, frequentemente desconsiderando as experiências e demandas das comunidades afetadas.

Também foi debatido o papel das Forças Armadas brasileiras em políticas de mitigação e adaptação climática, como o combate a crimes ambientais, o monitoramento da Amazônia e o apoio à Defesa Civil em eventos extremos. As intervenções problematizaram os limites dessa atuação, alertando para o risco de respostas emergenciais e militarizadas deslocarem o debate sobre as causas estruturais da crise climática, ligadas ao modelo de desenvolvimento nacional e à reprodução de desigualdades. A mesa, por fim, discutiu a importância de integrar o setor de defesa a uma estratégia climática mais ampla, de modo a evitar planejamentos isolados e reforçar ações interministeriais.

 

Mesa 2 – Eventos climáticos extremos, defesa e ações humanitárias

Adriana Leiras (HANDS/PUC-Rio)

Eduardo Svartman (UFRGS)

Vinícius Lopes (Columbia Global Centers)

Raphael Lima (King’s College London)

Debatedor: Marcelo Valença (EGN)

A segunda mesa focou na atuação do Estado — em especial das Forças Armadas — em desastres climáticos extremos, como enchentes e colapsos ambientais recentes no Brasil. O debate abordou a produção e o uso de dados, a logística humanitária e a coordenação entre atores civis e militares, questionando se essas respostas têm contribuído para reduzir vulnerabilidades ou se acabam reproduzindo hierarquias de saber e poder.

Partindo da justiça climática como lente analítica, foi discutido como as respostas humanitárias são atravessadas por desigualdades sociais, raciais e territoriais. Um ponto central foi a tensão entre a eficiência logística militar e a necessidade de reconhecer e incorporar os conhecimentos locais e as capacidades organizativas das comunidades afetadas. As exposições também levantaram questionamentos sobre os ganhos e perdas do emprego ampliado das Forças Armadas em desastres, especialmente quando elas ocorrem em detrimento do fortalecimento de estruturas civis permanentes, como a Defesa Civil.

 

Mesa 3 – Ilegalismos, vigilância e militarismos na Amazônia Legal

Mayane Bento (UEPA)

Alcides Perón (Unicamp)

Gabriel Fernandes Caetano (UFT)

Mariana Janot (Unesp)

Nicole Grell (Unesp)

Debatedora: Luísa Lobato (IRI/PUC-Rio)

A terceira mesa analisou a Amazônia como um espaço marcado por disputas socioambientais, ilegalismos e processos históricos de militarização. O debate concentrou-se nas operações de combate a crimes ambientais, no uso de tecnologias de vigilância e na presença militar no território, questionando a que agentes essas estratégias servem e quem são os principais atores afetados por elas.

Sob a lente da justiça climática, discutiu-se como a militarização da proteção ambiental pode impactar populações indígenas, ribeirinhas e comunidades tradicionais, muitas vezes submetidas a decisões unilaterais e restrições sem participar efetivamente dos processos decisórios. Também foi debatida a relação entre Forças Armadas e órgãos civis, como o Ibama, e as possibilidades (ou limites) de respostas não militarizadas à crise ambiental. A mesa encerrou com uma provocação sobre a viabilidade de uma defesa do clima desmilitarizada, baseada no respeito aos direitos humanos, na solidariedade e no reconhecimento das populações locais como atores centrais na proteção da floresta.